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AUDIÊNCIA
PÚBLICA REALIZADA EM 18 DE OUTUBRO DE 2004
Presidência do Sr.º Vereador S. Ferraz
Assunto:
Discussão sobre a execução de políticas públicas
de atendimento em abrigos para crianças e adolescentes na cidade
do Rio de Janeiro
O SR. PRESIDENTE (S. FERRAZ) - Boa-tarde a todos!
De acordo com o artigo 56, do Regimento Interno da Câmara Municipal
do Rio de Janeiro e nos termos do Requerimento n.º 2845/2004, de
iniciativa da Comissão Permanente do Direito da Criança
e do Adolescente, dou por aberta Audiência Pública para discutir
a execução de políticas públicas de atendimento
em abrigos para crianças e adolescentes na Cidade do Rio de Janeiro.
A relevante matéria em discussão nesta Audiência Pública,
por ser considerada de enorme repercussão social, não poderia
deixar de reunir os poderes representativos constituídos, membros
do Ministério Público, da Defensoria Pública, de
Organizações Não - Governamentais e principalmente
da sociedade civil, para buscar soluções no atendimento
de crianças e adolescentes em abrigos ou, como queiram, denominados
pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro como Centrais de Acolhimentos
para Crianças e Adolescentes, Casas Lares, Repúblicas de
Jovens, etc.
A discussão ganha importância nos dias atuais, primeiro pela
perplexidade da população ao ver ou ler nos noticiários,
autoridades (sejam do Estado ou do Município) acusando-se mutuamente
sobre suas responsabilidades constitucionais com relação
às crianças e adolescentes, infratoras ou moradoras das
ruas.
Segundo que, estas mesmas autoridades falham em considerar que as políticas
sociais voltadas ao infante e ao jovem não sejam concorrentes,
ou seja, da União, do Estado, do Município, devendo sim,
conforme determina a Constituição Federal e o ECA, integrar
seus diversos órgãos no sentido de oferecer a proteção
integral dos direitos da criança e do adolescente.
Nesta luta para resguardar os direitos da criança e do adolescente,
expressa em boa hora na Lei Federal 8.069/90, surgem abrigos públicos
ou conveniados para acolher crianças e adolescentes oriundas, na
maioria das vezes, de famílias desestruturadas e necessitadas de
assistência social.
Impossível não duvidar que as estruturas dos abrigos, Casas
Lares ou Centrais de Atendimento para crianças e adolescentes,
ao menos da Prefeitura desta Cidade, não olvidando que sejam lugares
de curta estada, não estejam cumprindo com sua primordial função
de inclusão social e reinserção familiar e comunitária
da criança e do adolescente, necessitando de uma profunda transformação
via investimentos orçamentários nos seus espaços,
nos seus aparelhos e no seu pessoal técnico de apoio, priorizando
o resgate social através de um trabalho multiprofissional, das
nossas crianças e dos nossos adolescentes, oferecendo-lhes proteção
à vida digna e ao seu desenvolvimento sadio, tanto físico
como intelectual.
Enfim, esta Comissão Permanente estará sempre aberta e disposta
a conclamar todos os Poderes Públicos e a sociedade civil, para
discutir e oferecer soluções aos problemas afetos à
criança e ao adolescente.
A Mesa está assim constituída:
Exmo. Sr. Dr. Juiz Guaraci de Campos Vianna, Juiz Titular da 2ª
Vara da Infância e da Juventude da Comarca da Capital - estamos
aguardando a presença dele; Exma. Sra. Ângela Maria Silveira
dos Santos, Promotora de Justiça da Promotoria da Infância
e da Juventude de Duque de Caxias e Professora da disciplina de Direito
da Criança e do Adolescente da Faculdade de Direito da Estácio
de Sá. Dra. Irene Rizzin, professora e pesquisadora da PUC e Diretora
Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância; Professora
Irma Rizzini, Mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro e Doutoranda em História Social pela UFRJ; Senhora
Alison Sutton, representante da UNICEF - Brasil
(Fundo das Nações Unidas para a Infância); Sra. Cláudia
Cabral, representante da Organização Não-Governamental
Terra dos Homens; Sra. Luciene Miguez Naif, representante da Organização
Não-Governamental Ex-Cola RJ; Sr. Jorge Barros, membro do Conselho
Estadual do Direito da Criança e do Adolescente. Encontra-se também
presente a Dra. Cássia de Souza, Comissária da 1ª Vara
da Infância e da Juventude da Comarca da Capital.
Com a palavra, a Dra. Irene Rizzini.
A SRA. IRENE RIZZINI - Muito boa tarde a todos aqui presentes. Entendendo
que esse é um momento de transição política
para o nosso município e talvez na esperança de que nós
consigamos conduzir um debate sério e organizarmos formas de pressão
mais eficientes para conseguirmos os objetivos que ainda não saíram
do papel, não saíram da legislação e das intenções
daqueles que dedicam suas vidas a buscar alternativas melhores de vida
para crianças e adolescentes no nosso município, no nosso
estado e no nosso país. Coube a mim, como uma das autoras do livro
"A Institucionalização de Crianças no Brasil
- Percurso Histórico e Desafios do Presente" que motivou a
realização dessa Audiência Pública a fazer
essa abertura sobre este trabalho. Eu vou apenas historicizar um pouco
como nós chegamos aqui e dividir esse momento com a Professora
Irma Rizzini e co-autora desse trabalho - autora e co-autora por muitos
anos - e Alison Sutton do UNICEF que provocou a realização
do livro, que é uma síntese de um trabalho que nós
temos realizado durante muitos anos.
Na realidade, nós iniciamos essa discussão da internação
das crianças em instituições de vários tipos,
de várias modalidades há mais de vinte anos, quando aqui
nessa cidade nós tínhamos muitos orfanatos, que eram instituições
que tinham muitas crianças, poucas verdadeiramente órfãs.
Eram crianças e adolescentes muito freqüentemente tendo seus
pais vivos - ambos os pais - e cresciam com uma história e uma
identidade de órfãos, simplesmente pelo fato de terem nascido
pobres.
Nossa experiência, nossa trajetória de trabalho, de mobilização
em torno dessa questão, minha e da Irma, também foi muito
vivida e acompanhada pela professora Sônia Altoé aqui presente,
pela professora Esther Arantes também, pesquisadoras e militantes
que trabalharam em conjunto nos anos setenta e oitenta já denunciando
o escândalo que era a existência de inúmeras instituições
no nosso país e muito especificamente de convívio pessoal
nosso no Município do Rio de Janeiro onde centenas de crianças
e adolescentes viviam institucionalizados, abandonados, em parte pelo
espaço de institucionalização quando não foram
criadas alternativas para que as famílias pudessem criar os próprios
filhos. Isso nos trazia esse desafio que tem sido muito, muito custoso
reverter. E aqui presentes, a nosso convite, estão pessoas que
também vêm acompanhando essa luta e que nos emociona terem
aceitado o convite de debater em conjunto nessa Casa. São Cláudia
Cabral, aqui presente, da Associação Brasileira Terra dos
Homens e Jorge Barros, também com longa experiência. Companheiros
de muitas décadas. Ele trabalhando na frente de muitos outros grupos,
junto aos conselhos, Conselho Municipal, Conselho Estadual e uma vasta
experiência deste grupo aqui presente, não só em nível
de estudo e de registro, mas de terem trabalhado pessoalmente dentro dessas
instituições que, embora tenham modificado a sua feição,
a sua aparência, ainda guardam o ranso do passado.
O trabalho que nós estamos lançando agora, que é
uma síntese dessa história da institucionalização
das crianças no nosso país, ele vai abordar justamente mudanças
que ocorreram e as permanências que ainda existem. O que ao longo
desses séculos foi possível modificar e todo o conteúdo,
as práticas que permanecem presentes até os dias de hoje.
É absolutamente inadmissível que um país rico como
o Brasil não tenha até hoje conseguido criar alternativas
de vida digna para a grande maioria da sua população.
É nesse sentido que várias pessoas presentes a esta Assembléia
são lutadores que vêm conosco estudando alternativas nas
comunidades da cidade do Rio de Janeiro, do município e do Estado,
pessoas que vivem e nasceram em comunidades que enfrentam dificuldades
das mais básicas, de falta de saneamento, falta de recursos para
a manutenção dos prédios públicos, de escolas
para as crianças, de condições de Segurança
Pública, que é extremamente grave.
De certa forma, creio que não só eu, mas todos nós
que estamos aqui, tínhamos uma expectativa de que uma Assembléia
Pública dessa natureza pudesse representar uma pressão,
que espero este não seja o único passo para os Vereadores
que permanecem na Casa e aqueles outros que foram eleitos e estarão
assumindo em breve, que isso não seja apenas um sonho da nossa
parte ou um delírio de que é possível exercer esse
tipo de pressão, que nós consigamos avançar e não
só debater entre nós mesmos, que já estamos convencidos
da importância da mudança, que temos estudado o tema e sabemos
que são muitos os caminhos que já foram apontados para essa
transformação e que consigamos, em conjunto, lutar pela
implementação, não só da legislação
que garante os direitos da criança e do adolescente, mas pela implementação
de mudanças na arena política, para que de fato os direitos
da criança e do adolescente sejam priorizados na agenda política
nacional. Ainda não chegamos lá, estamos muito longe de
transformarmos as instituições que conhecemos praticamente
desde o século XIX. Ainda existem maus tratos, torturas e instituições
que estão ao lado das nossas casas na cidade do Rio de Janeiro
e com certeza em outros Estados brasileiros, é mais do que hora
de lutar para reverter essa história, não só fechar
instituições. Na verdade o que pleiteamos é vislumbrar
caminhos de vida digna para as crianças e adolescentes e formas
efetivas de apoio para aquelas crianças que estão em circunstâncias
em suas famílias, que necessitam de atenção especial,
que pode ser ou não uma instituição que as acolha
temporariamente, mas planejamento que traga às crianças
a possibilidade de um futuro mais seguro, um futuro em que elas não
sejam simplesmente jogadas em instituições e cresçam
sem que tenham a possibilidade de desenvolver integralmente as suas capacidades,
as suas habilidades e todos os seus potenciais. Esse é o desenvolvimento
integral, que está lá no Estatuto da Criança e do
Adolescente, esse é o desenvolvimento humano que se vislumbra com
a Convenção das Nações Unidas pelos Direitos
da Criança, essa é a luta de respeito a esses direitos,
que acho que todos nós vimos empenhando e desejamos que este momento
em que aqui estamos seja apenas o primeiro passo de uma ação
mais articulada de mobilização e de pressão para
que essas alternativas que já vêm sendo apontadas, inclusive
no Rio de Janeiro, sejam levadas a sério pelas políticas
municipais, estaduais e federais e que possamos priorizar de fato o desenvolvimento
integral das crianças e adolescentes que nascem em nosso país.
Eu tenho viajado muito, passado por muitos países e vejo que esse
tema do abrigamento das crianças e da busca de alternativas para
que as crianças, se não necessitarem de um acolhimento institucional,
possam ter várias formas de apoio, de suporte, que elas necessitam
constituem, um tema que vem preocupando muitos países, não
é uma questão só brasileira. Há um movimento
internacional nesse sentido e acho que o Brasil pode dar um exemplo de
protagonismo nesse sentido, de reverter uma história que vem sendo
vergonhosa, de manutenção de instituições
que causam mais prejuízo do que benefícios às crianças
que nascem nesse país, apontando caminhos sim, mudando a legislação
sim, mas também colocando em prática essas idéias
e, efetivamente transformando, no sentido de ampliar as oportunidades
para as crianças e adolescente, sobretudo aquelas que nascem em
condições de maior vulnerabilidade no nosso país.
E elas são muitas, porque são as crianças que normalmente
nascem em condição de pobreza. E aí nós vamos
para pelo menos 30% da população infantil e juvenil; pelo
menos.
Fica aqui o meu desejo então de que esse seja um momento, um marco
para todos nós para articularmos formas mais eficientes de pressão
e priorização na agenda do nosso Município, na agenda
política do nosso Município, para que consigamos não
só lançar livros, apontar caminhos e direções,
mas contribuir nos espaços políticos, já criados
de luta democrática, aqui sejam implementadas ações
que efetivamente dêem o suporte necessário às famílias
e a todos os adultos que são responsáveis, e tem em suas
mãos a responsabilidade de criar uma criança, um adolescente.
Eu fico por aqui.
O SR. PRESIDENTE ( S. FERRAZ ) - Eu antes de passar a palavra para o
próximo orador, a assessora Maria Amélia, está representando
a Vereadora Lilian Sá, que é uma também defensora
da criança e do adolescente.
O que na realidade essa audiência pública hoje, era para
ter sim a imprensa da Cidade do Rio de Janeiro para ver as dificuldades
em que essa Cidade tem dificuldade para atender essas crianças.
Se hoje nós formos imaginar, nós já temos a quarta
geração de rua. Porque, o poder público não
tem tido capacidade, ou não tem tido o interesse em cuidar desses
jovens, dessas famílias. Muitas delas perderam o emprego, perderam
a sua residência e vieram morar nas ruas da Cidade. E eu não
tenho visto, em momento nenhum, nem governo federal, nem Governo estadual,
nem Municipal levantar uma bandeira em prol dessas pessoas.
Mas, hoje nós temos registrado que o número de crianças
abatidas no confronto com a polícia é uma quantidade muito
grande. São crianças que acabam sendo levadas, sendo contratadas
para trabalhar na área do tóxico. Isso faz com que nós
percamos muitos jovens nessa cidade. Seria preciso que o governo criasse
algum mecanismo, mas não um mecanismo só aparente.
Ninguém constrói uma casa pelo telhado. Constrói-se
uma casa tendo um alicerce. Se nós não construirmos alguma
coisa por essas crianças, na idade adolescente, nós poderemos
chegar às cidades violentas, como têm os Estados Unidos.
Porque lá, tem que se começar na base. Porque hoje nós
temos visto crianças, adolescentes, de doze, treze anos, já
portando armas de grosso calibre.
É preciso que as autoridades dessa cidade, desse país olhem
mais por essas crianças. Nós, com certeza, não fazemos
mais do que a nossa obrigação em olhar por essas pessoas.
É preciso que os governos na hora, aqui, por exemplo, no âmbito
municipal, quando se coloque no orçamento uma verba destinada ao
cuidado da criança, essa verba não seja desviada para fazer
obras e mais obras, que essa cidade faz. Antes de pensar nas obras, nós
temos que pensar no futuro dessas crianças, que é o futuro
do nosso país.
Eu passo a palavra à professora Irmã Rizzini.
A SRA. IRMA RIZZINI - Boa tarde a todos, ao Plenário, à
Mesa.
Nesse momento, eu vou apresentar para vocês uma pequena contribuição,
na verdade fazendo parte de uma grande história do nosso país,
que é a história do atendimento à infância
no nosso país.
Eu vou pegar alguns marcos principais para provocar, fomentar o debate,
porque, na verdade, nós temos uma história riquíssima
dirigida, voltada para essa questão da infância. A gente
fica sempre com a impressão de que nada foi feito, de que nós
só temos o caos. Mas nós temos uma trajetória rica.
O que nós fazemos, nesse trabalho, é trazer à tona
essa história, para subsidiar - o objetivo é esse: subsidiar
- essa discussão, a formulação de políticas
públicas, de trazer essa contribuição para a prática,
para que isso provoque mudanças na prática. Então,
o objetivo dessa sistematização histórica, trazendo
até a atualidade, é nesse sentido: contribuir para esse
debate, para formulação, implementação e controle
das políticas públicas.
Nós trazemos também algumas imagens... ainda não
estão sendo mostradas as fotografias.
Junto com esse estudo histórico, nós fizemos também
uma pesquisa de imagens de instituições de abrigamento de
crianças e nós trouxemos algumas para mostrar para vocês.
O que a gente pode pensar... como eu falei, o Brasil tem uma historia
muito rica. Essa história vem desde o período colonial e
a política... essas políticas, essa história vem
se desenvolvendo desde o período colonial. O marco mais importante,
a ação mais marcante na nossa história é a
da questão do afastamento da criança do convívio
familiar e a colocação em instituições. Não
vou entrar em muitos detalhes. Isso é retratado no livro. Gostaria
de apontar, para a gente discutir, essa questão da importância
dos paradigmas do atendimento como eles são determinantes na formulação
dessas políticas. Então, uma questão fundamental
que já levantei é a exclusão da criança do
convívio com a família. Essa foi um marco mais fundamental
dessa história da assistência. E foi tremendamente reforçado
nos períodos de ditadura, tanto da ditadura Vargas, quando foi
criado o primeiro sistema nacional de atendimento à infância,
quando foi estruturado, esse atendimento era feito de uma forma descentralizada,
através dos governos e das prefeituras, e nisso o Rio de Janeiro
teve uma importância fundamental como capital do país. Muitas
iniciativas surgiram daqui, como, por exemplo, foi aqui que foi criado
o primeiro Juizado de Menores, como se chamava na época, em 1927,
e daí outros estados começaram a criar esse sistema de assistência.
Esse sistema praticamente formulou e ajudou a implementar uma modalidade,
um modelo de atendimento, que é o modelo do recolhimento das crianças,
não só o recolhimento das crianças das ruas, como
também a internação de crianças, através
de pedido das famílias, - famílias pobres. E esse modelo
de atendimento foi, depois, reforçado e implementado pelos sistemas
nacionais. Primeiro, o SAM, Sistema de Assistência a Menores, criado
por Getúlio Vargas, em 1941, sob o mote da defesa nacional. O objetivo
mais importante aí era a defesa da sociedade, não a defesa
da criança. Isso é uma paradigma que a gente tem de mudar,
mas a gente corre o risco o tempo todo de reproduzir. Então, essa
modalidade de atendimento era calcada em retirada de crianças das
ruas. Esse é um fenômeno que a gente começa a localizar
na documentação desde o final do século 19, a criança
que trabalha nas ruas, a criança que perambula nas ruas. Tem um
exemplo muito claro disso, em um relatório de um Juiz de Menores
de 1938, em que ele, apesar da falta de vagas, no sistema conveniado de
instituições, ele conseguiu recolher e internar 300 crianças
na Cidade do Rio de Janeiro. É um número muito grande para
a Cidade na época, e apesar de ter, ainda lá, uma série
de pedidos de internação. Esse período foram 20 anos
trabalhando dentro dessa política, vamos dizer assim, bastante
complicada no sentido que, mesmo após o término da ditadura,
esse sistema não se modifica. São vários os registros
dos problemas que as instituições do SAM continham, em termos
de maus tratos, e uma questão a que temos de estar atentos o tempo
todo, quando a gente fala de assistência social, que é a
questão do clientelismo e do uso político desse sistema.
Então, se falava muito, na década de 50 dos "internatos-prêmios"
e dos "internatos-castigos". O castigo era para a criança
desvalida, que não tem valor, não tem protetor, não
tem quem indica, que iam para os piores internatos, e os "prêmios"
eram as instituições que funcionavam bem, que a mãe
conseguia um apoio, um patrão que tem uma certa influência
política, o apoio de um deputado. Então, isso foi uma marca
importante desse sistema. Claro que há exceções,
claro que existiram instituições que os internos conseguiram
ter uma opção de educação, trabalho, e de
colocação na sociedade. A gente está trabalhando
com uma análise mais macro desse sistema. E havia uma reação
muito forte também em certos setores da sociedade na época:
denúncias na Imprensa... Foi criada uma CPI do SAM para se investigar
os problemas de corrupção, de clientelismo, de maus tratos...
Foram documentados vários internatos, meninos e meninas, o atendimento,
os instrumentos de tortura nos internatos para infratores... Essa CPI
acabou não chegando realmente a punir ninguém, porque nós
tivemos aí o Golpe Militar de 64, a instalação da
Política Nacional de Bem-estar do Menor e a criação
da Funabem, que todos conhecem.
Com todo um discurso da não-internação, da crítica
a esse sistema, na verdade o que a gente observa desse período,
falando genericamente, é que nunca se fomentou esse sistema de
exclusão social. Com todos os problemas vividos no período
do SAM - talvez não com tantas aberrações -, de qualquer
maneira, na essência, essas questões se mantiveram.
Durante todo esse período da nossa história da Assistência
Social, nunca se preocupou em avaliar essas políticas, em ver qual
o impacto que havia na sociedade. Isso é uma coisa que a gente
está começando, aqui na nossa sociedade, a aprender a fazer.
A gente não tem senso da internação; a gente tem
alguns estudos, algumas citações contidas em materiais das
próprias instituições. Então, faço
essa ressalva: quando eu citar um dado, eu não posso dizer, afirmar
que é um dado fidedigno. Por exemplo, na publicação
de 68 da Funabem, afirma-se que havia, em todo o Brasil, 84 mil menores
internados. Não se diz como se levantou isso, se foi junto ao Juizado,
se foi junto às Fundações Estaduais... De qualquer
maneira, é um número alto para uma fundação
que foi criada para evitar a internação, para evitar a retirada
da criança de sua comunidade, de sua família. É muito
alto realmente. Nunca chegou perto desse número de internados.
No Rio de Janeiro, tinha mais ou menos 13 mil internados, não sei...
Não há levantamento para o resto do Brasil. Mas, a política
do SAM realmente... A repercussão maior foi no Rio de Janeiro.
As tentativas de disseminação pelo país esbarraram
em muitos problemas: problemas de uso da máquina administrativa...
Então, houve realmente um maior desenvolvimento aqui na capital.
Outro problema sério desse tipo de internação...
Os próprios estudos, na época, já começavam
a mostrar, com um trabalho feito. O primeiro trabalho de pesquisa de uma
universidade, de pesquisadores dentro desse sistema, mostra que essas
crianças, esses meninos e essas meninas, passavam por uma verdadeira
carreira institucional. Ao longo de sua vidas, até os seus 18 anos,
que era o período de desinternação, em que eles tinham
que deixar a instituição, eles podiam passar por cinco instituições,
perdendo sua história de vida, perdendo seus contatos, suas ligações
afetivas... Então, isso é um a coisa muito importante, porque
é um atendimento feito por segmentos de idades. É uma coisa
que sempre é muito combatida.Quando se discute a questão
de abrigamento, essa é uma questão a ser considerada. Isso
não é uma coisa do passado: a gente encontra ainda, pelo
Brasil a fora, essa modalidade de atendimento para casos de crianças
em situação de abandono, que vão passando até
6 anos, de 7 a 11... Aquelas faixas, aquelas divisões. Então,
o que a gente percebe, na história da assistência à
infância é essa cultura da institucionalização.
O que nós estamos propondo, o que a legislação, o
Estatuto da Criança e do Adolescente está propondo é
uma mudança de mentalidade, uma mudança de paradigma. A
gente quer garantir o direito à convivência familiar, que
é o direito de toda criança. Esse é um aspecto importantíssimo.
Tem alguns pontos aqui que já vim apresentando que já dão
um bom suporte para uma discussão.
Então, o que a gente pensa em termos de repercussões na
atualidade, o que esse passado nos chega? A questão do clientelismo...
É fundamental, a gente não pode deixar de o tempo todo estar
atento a isso, e ele ocorre... Um ponto fundamental nessa questão
é o da participação. O clientelismo vai criando suas
raízes, ele vai ocupando espaço na medida em que há
menor participação da sociedade, da sociedade civil organizada,
participação popular... O que se está chamando hoje
em dia da "falta do controle social", do controle da sociedade
sobre essas políticas. Isso é um aspecto fundamental! Isso
é um ponto de importante repercussão na atualidade.
Outra questão também importante que a gente vê nos
poucos estudos sobre essa clientela que era atendida pelas instituições
é que a maioria das crianças tinha família. Então
se falava "tem tantos milhões de menores abandonados o Brasil..."
Não era verdade! Quando se ia lá ver quem era a criança
internada, se verificava que a maior parte tinha uma família. O
tempo de internação, se sabia disso, provocava um pouco
o afastamento em relação à família. É
comum também as crianças serem retiradas de uma área
distante da periferia e serem colocadas em um local distante, conforme
a conveniência do sistema, das fundações. Então
isso dificultava também esse contato. Até serem trocadas
de estado... Por muito tempo, crianças de rua do Rio de Janeiro,
que circulavam pelas ruas, eram recolhidas, seja pela polícia,
pelo Juizado, e eram enviadas para as instituições rurais,
os patronatos de Minas Gerais. E lá eram verdadeiros locais de
exploração do trabalho dessas crianças, os próprios
juízes reconheciam isso e diziam que, depois aos 18 anos, esses
meninos voltavam eram largados aqui na cidade do Rio de Janeiro, analfabetos,
desnutridos, sem qualquer preparação para nada, e tendo
perdido os vínculos com a comunidade, com a família, completamente
desenraizados!
Então, essa questão quando a gente diz "tinha família...".
Então, quem eram essas mães? Boa parte dessas mães
eram mães empregadas domésticas, eram mães com famílias
formadas, mães com filhos pequenos, que são as famílias
mais vulneráveis... E se a gente for olhar os dados do IBGE, a
gente vê que é uma parcela importante no Brasil. Cerca de
30% das famílias abaixo da linha de pobreza no Brasil são
famílias uniparentais, basicamente formadas por mulheres com filhos
pequenos, que são filhos que têm um grande grau de dependência,
são famílias em que a mulher tem muita dificuldade de sair
para trabalhar, ela não tem onde deixar seus filhos... Isso mostra
também a fragilidade das políticas públicas em termos
do atendimento infantil, essa primeira faixa. Então isso é
uma questão também que a gente tem que estar vendo, os conselheiros
tutelares sabem disso, porque as mães procuram os conselhos pedindo
creche, pedindo alguma forma de apoio para que elas possam sustentar suas
famílias. Elas não estão pedindo "coloquem meu
filho num internato, num abrigo...". Não é isso que
elas estão pedindo! Elas estão pedindo o apoio, em termos
de políticas públicas, sejam políticas executadas
pelo Estado, por organizações, que dêem condições
dessa família se manter, se reproduzir e sobreviver.
Também outro aspecto que é importante é a expansão
da cobertura da pré-escola, que é uma coisa muito falha!
A gente tendo uma boa cobertura em termos de pré-escola, a gente
já resolveria uma boa parte dessa questão.
Bom, eu acho que aqui são alguns pontos que eu apresentei. A gente,
num debate, a gente pode voltar para algumas questões... Realmente
é um apanhado que eu quero... Quando eu falo assim, a história...
A gente não pode entender a história como uma coisa evolutiva
num sentido linear.
Tivemos, no século XIX, uma grande preocupação com
a civilização do povo brasileiro, com a educação.
Tivemos instituições de educação profissional
exemplares, depois tivemos toda uma questão política em
que esse menor não é mais criança, e se cria duas
categorias: o menor é aquele que ameaça à sociedade,
aquele que potencialmente é perigoso à sociedade, e criança
é aquela que deve ser protegida.
Não há nenhuma garantia que vamos evoluir para a solução.
Só podemos evoluir dessa forma, chegar a propostas realmente efetivas,
eficazes a partir dessa mobilização da sociedade, da mobilização
popular, da participação popular, ou seja, realmente, chegar
a uma democracia de fato. Uma democracia implica, nessa participação,
estarmos vendo a criança como prioridade. Então, agradeço
a vocês e podemos voltar ao assunto nos debates.
Obrigada.
O SR. PRESIDENTE (S. FERRAZ) - Quero registrar as presenças da
Dra. Efrásia Maria de Sousa das Virgens, Defensora Pública,
e dos alunos da Escola Modelar Camboíba, da Ilha do Governador.
Muito obrigado.
Hoje, estamos discutindo, nesta Audiência Pública, a parte
técnica de estudiosos da juventude e do adolescente, mas eu gostaria
de me aprofundar um pouco mais, porque já se discutia um melhor
encaminhamento para os jovens desde o início do Jardim até
o 2º Grau, e nós não víamos chegar a lugar nenhum.
Eu fiquei de cabelos brancos e não vi ainda uma solução
para o caso dos jovens e dos adolescentes do nosso país, um país
rico, onde se cria muita coisa. Gostaria de alertar ao Ministério
Público, porque hoje têm alguns representantes aqui: usam,
muitas vezes, a imagem da criança e do adolescente para se arrecadar
fortunas neste país imenso, mas deveria ter uma fiscalização.
Essas contas teriam que ser apresentadas para saber aonde gastou, com
qual criança, qual a instituição que foi beneficiada
e ajudou o adolescente? Porque se gasta muito dinheiro.
No domingo, foi rapidamente que eu vi, não sei se foi no Fantástico,
mas foi na televisão, numa sala de aula com 15 alunos, 11 não
tinham bolsa escolar. Para onde foi esse dinheiro? Quem fiscaliza?
Eu sempre digo aqui, nesta Cada de Leis, que, se o Vereador deixasse de
lado tantas leis que fazem e que não somam nada vezes nada; se
nós, Vereadores, cada um dentro da sua Comissão, procurasse
fiscalizar o governo, saber quanto custou, a quem pagou, talvez fosse
sobrar dinheiro para a gente fazer muita creche e cuidar muito bem dessas
crianças. Quero passar a palavra à próxima oradora,
a Sra. Álison Sutton.
A SRA. ALISON SUTTON - Boa tarde. É uma grande honra estar aqui
na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde há um potencial
para fazer uma diferença na política para crianças
e adolescentes nessa cidade e talvez nesse país. Pediram que eu
explicasse um pouco o contexto de como se originou esse livro. A UNICEF
comissionou esse estudo feito pelas Dras. Irene e Irma Rizzini com intenção
de provocar uma reflexão mais aprofundada dos atores que lidam
com a política da criança para tentar entender, provocar
essa reflexão para entender porque tem sido tão difícil
mudar o paradigma para esse público para fazer uma transformação
para políticas realmente transformadoras que promovam o direito
à convivência familiar e comunitária, como é
quando há uma situação de violência doméstica,
uma situação de precisar providenciar um abrigo temporário.
Porque não tem havido políticas que fortaleçam a
capacidade daquela família reintegrar aquela criança. E
em relação ao livro, sabendo toda a trajetória das
duas professoras e toda a pesquisa que tinha feito, era possível
fazer um livro muito grande e acadêmico sobre esse tema. Mas o nosso
estímulo foi que o trabalho fosse redobrado para fazer uma síntese
para que esse material seja disponível e acessível a todos
os operadores da política da criança, os operadores de direito,
o Conselho Tutelar, o dirigente do abrigo para realmente provocar essa
reflexão. Porque e na forma que a professora Irma Rizzini acabou
de falar, de mostrar. Não é uma questão de um contar
cronológico dos acontecimentos, é mostrar os marcos recorrentes.
E é interessante, vocês vão ver, atrás tem
um glossário que mostra até a forma da terminologia, diferentes
formas que a criança tem sido chamada, e que isso até hoje
se vê na linguagem dos que lidam com crianças, você
tem esses resquícios do passado e a idéia de que a família
pobre é incapaz de cuidar dessa criança. Então, nosso
desejo como Fundo das Nações Unidas para a Infância
é estimular esse olhar. Por que não tem se investido em
políticas de promoção à convivência
familiar? E então temos tido bastante reflexão, produção
em relação a outros temas, notoriamente sobre trabalho infantil,
exploração sexual, a questão até das medidas
sócio-ativas que não tem se resolvido, mas tem se trabalhado
bastante para pensar como modificar. O tema e até a situação
das crianças em abrigo têm sido ofuscados e fora da agenda
política principal desse país e até entre os atores
do sistema de garantia. Então você tem muito treinamento
sobre exploração sexual, sobre trabalho infantil, mas qual
é... em relação à questão do abrigo
e do fortalecimento do convívio familiar e comunitário?
Então, se logo na promulgação do ECA fechou-se alguns
dos grandes orfanatos, depois daquele ímpeto inicial não
tem se investido nessas políticas de promoção à
convivência familiar e comunitária. E é interessante,
como a Professora Irene mencionou, ao nível internacional também
há grande preocupação, há muitos trabalhos
em diferentes países para enfrentar essa questão de crianças
em cuidados fora de casa. É um tema bastante suscitado na questão
das guerras internacionais e civis internas, onde as crianças são
separadas dos seus pais. Também muito na questão de crianças
afetadas pelo HIV/AIDS, especialmente no continente África. Então,
há uma grande preocupação em ajudar essas crianças.
Ao nível internacional, no plano internacional é um tema
interessante. O tipo de indicador que está se discutindo para medir
a transformação das políticas é desse tipo.
Por exemplo, medindo quantas crianças que estão em abrigo
têm um plano individual de reinserção familiar comunitária.
Esse é o tipo de detalhe que o operador do sistema de garantias,
o defensor público, o promotor, juiz e o conselho tutelar deveriam
estar monitorando. Mas isso faz parte da rotina desses atores de forma
regular? Precisamos verificar isso.
Outro indicador que está sendo sugerido internacionalmente para
medir o progresso de transformação das políticas
é, por exemplo, um exame a nível nacional, a nível
local, da proporção do gasto público entre programas
de prevenção e reinserção familiar e o gasto
em cuidados institucionais. Esse é um indicador para mostrar em
que sentido a política está se transformando. E é
interessante, não sei se é de comum conhecimento, mas agora
no 14 de setembro houve uma audiência em Genebra do Comitê
de Direitos da Criança, que é o órgão das
Nações Unidas que examina o cumprimento da Convenção
dos Direitos da Criança a nível nacional. E todos os estados
signatários são obrigados a relatar seus progressos em relação
à implementação da Convenção. Então,
o Brasil recentemente teve esse exame pela primeira vez desde que ratificou
a Convenção e um dos temas que surgiu nas recomendações
do Comitê especialmente para o Brasil era uma atenção
para esse tema e no sentido de recomendações bem específicas
em relação à necessidade de fazer um levantamento
da situação. Porque o estado brasileiro não tinha
dados nacionais para oferecer ao Comitê no seu pedido de informação
sobre a situação. Então, é uma recomendação
que se levante a situação. E o que tem disponível
é uma pesquisa do IPEA, o Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada, sobre as crianças que estão em abrigos que recebem
financiamento federal, que eram 620 instituições pesquisadas
entre 2002 e 2003. E aqui mais tarde vamos ter a exposição
sobre pesquisas locais municipais. Mas não há dados nacionais
sobre isso. E obviamente você não constrói políticas
públicas sem dados sobre o público-alvo dessa política.
Então, outro aspecto que o UNICEF espera estimular no seu trabalho
é uma reflexão entre os atores do sistema de garantia sobre
responsabilidades de cada um em assegurar que o abrigo seja realmente
excepcional e temporário. Porque é necessário que
a função do abrigo seja aquele apoio temporário que
depois se supera com outras formas de apoio à família ou
à família substituta. Então, nessa reflexão
que queremos estimular no sistema de garantias. Então, realmente,
o Conselho Tutelar monitora o tempo da criança no abrigo uma vez
encaminhado esquece aquela criança lá. O juizado também
monitora, mas tem metas de tempo para crianças estar nessa situação
e depois tentar resolver através de outros programas e famílias
substitutas. E acho que é interessante ter esse debate aqui no
Rio porque temos exemplos muito interessantes que vamos ouvir em breve,
não só um programa de acolhimento familiar, que é
uma alternativa muito interessante em relação à institucionalização
da criança. Se você tem uma forma de oferecer uma abrigagem,
uma forma de proteger que estimule a volta para a família de origem,
que dá o tempo, dá o acolhimento para a criança e
também dá o tempo para a família se ajustar para
realmente poder ser fortalecida para o retorno daquela criança.
E também você tem um levantamento que foi feito exatamente,
um levantamento das situações dos abrigos na cidade, que
também vamos ouvir. E só para concluir, para contextualizar
esse debate, de levar um pouco ao cenário nacional, e que temos
tido... Assim, os passos em nível nacional têm sido lentos.
E acho que também seria interessante esse diálogo entre
o que acontece no município e o que acontece em nível de
política nacional. Então, em 2002 tivemos um colóquio
nacional sobre a questão do abrigo e a necessidade de um reordenamento
da política de estímulo, de que forma poderia se estimular
a questão de que abrigo é realmente temporário, não
é um depósito, as formas de financiamento que poderiam ser
modificadas para premiar a reinserção e não premiar
o tempo demais no abrigo. Seguindo esse colóquio, formou-se um
comitê nacional de reordenamento da política de abrigos que
foi isso que estimulou essa pesquisa nacional do IPEA, mas que é
uma pesquisa limitada, que é só de abrigos que receberam
financiamento federal. Então, exatamente,o próximo passo
é estimular um recadastramento de todos os abrigos no país,
um tipo de censo da criança abrigada. Isso poderia ajudar a adequação
das políticas em todos os níveis. E esse ano, 2004, o CONAD,
Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, no
seu planejamento estratégico, elegeu a questão do reordenamento
de abrigos como uma das suas prioridades e em função disso
teve dentro do governo federal uma discussão entre vários
ministérios e o anúncio que se terá uma comissão
intersetorial, liderada pelo Ministério do Desenvolvimento Social
e a Secretaria Especial de Direitos Humanos, mas também com participação
do Ministério da Educação e Saúde e com órgãos
representativos da sociedade civil que lidam com essa área. E a
idéia dessa comissão intersetorial seja de desenvolver um
plano e recomendações para uma política de apoio
à convivência familiar e comunitária. E aí
a idéia é que essa comissão vá trabalhar com
tempo fixo e com três câmaras técnicas. Uma olhando
a questão de políticas de promoção da família;
então, políticas exatamente que estamos todos esperando
ver que dão essa força para a família e que sejam
uma prevenção, uma saída para o abrigo; uma outra
câmara técnica que olhe... Então, essa das políticas
para apoio à família tem tudo a ver com o novo desenho do
sistema único de assistência social. São políticas
de fôlegos grandes que estamos querendo examinar. Uma câmara
técnica sobre o reordenamento da política de abrigos, em
que se espera ter a promoção de alternativas à institucionalização.
Como falei antes, a necessidade de abrigar existe, mas há formas
de se fazer esse abrigamento que promovem a convivência familiar
e não a institucionalização. Então, isso é
o que se precisa documentar e estimular a adoção, por cada
vez mais municípios, deste tipo de alternativa.
Além disso, uma terceira Câmara Técnica que olharia
a questão da humanização dos procedimentos de adoção
e que obviamente entrariam em diálogo com os vários projetos
de lei, para modificar os procedimentos de adoção.
Então, estas são as iniciativas que se anunciam a nível
federal e o interessante é que já se viu o diagnóstico
sendo feito localmente e o programa de acolhimento familiar sendo feito
localmente no Rio e assim esperamos que este debate de hoje, bem como
todos esses trabalhos, possam trazer uma forte contribuição,
um subsídio para esse debate nacional, a fim de realmente tentarmos
assegurar linhas de políticas que fortaleçam o direito à
convivência familiar comunitária..
Obrigada.
O SR.PRESIDENTE (S.FERRAZ) - Gostaria de registrar a presença do
Sr. Alexandre Bárbara Soares, representante do Conselho Regional
de Psicologia do Rio de Janeiro.
Queria agora passar a palavra à Dra. Ângela Maria Silveira
dos Santos.
A SRA. ANGELA MARIA SILVEIRA DOS SANTOS - Primeiramente gostaria de cumprimentar
os integrante da Mesa e o público aqui presente e dizer o quanto
este momento é importante, principalmente dentro da atual situação
em que vivemos, quando na verdade todos nos sentimos um pouco perdidos
quanto ao que fazer diante da violência que vivenciamos no dia a
dia e o que é interessante é que o Estatuto da Criança
e do Adolescente é uma lei que na verdade se antecipou aos fatos
sociais. O normal é que uma lei venha após o fato social,
mas o Estatuto veio exatamente se antecipar porque ele vem regulamentando
a Constituição Federal e a nossa Constituição,
por ter a base da cidadania, deu às crianças e adolescentes
a mesma condição de cidadão. Porém, ela é
fruto de uma mudança de comportamente mundial, em razão
da globalização, que atingiu a todos nós em todos
os momentos e o brasileiro, que sempre foi um pouco acomodado, não
havia tomado consciência do movimento da globalização,
mas o interessante é que parece que os nossos representantes tomaram
consciência de uma maneira anterior a nós e realizaram o
Estatuto da Criança e do Adolescente, que vem nesta linha de desenvolvimento
e das necessidades individuais de cada pessoa, ele vem enaltecendo as
crianças e adolescentes de forma a serem sujeitos de Direito, como
somos nós e com isso ele teve a preocupação de elencar
todos os direitos dos quais já somos detentores, estendendo-os
às crianças e adolescentes.
Então, ele teve a preocupação de definir cada direito
e, depois que ele o faz, ele cria os instrumentos para se concretizar
esse direito e dentro dessa linha de transformação, ele
coloca como responsáveis para que esses direitos possam um dia
se concretizar, primeiro a família, depois ele chama a sociedade
e, por último, o Estado. Então, vejam que ele estabelece
a responsabilidade compartilhada. Hoje fala-se tanto em guarda compartilhada
entre os pais, mas o legislador já estabelecia uma responsabilidade
compartilhada para que efetivamente, os direitos fundamentais previstos
na constituição e no estatuto pudessem se concretizar a
toda e qualquer criança ou adolescente.
Então, hoje, nós não temos mais uma lei voltada somente
para o carente, para o menor e para o infrator. Nós temos uma lei
voltada para qualquer criança e qualquer adolescente, independentemente
da sua condição física, mental, social, ou financeira.
E, com base nisso, o legislador também sabia que para esses direitos,
para que esses direitos pudessem ser exercidos na sua plenitude por todas
as crianças e adolescentes, ele estabeleceu um sistema de programas
de como isso deveria se desenvolver. E aí ele tem um capítulo
que trata da proteção, da implementação das
ações que devem ser feitas visando à concretização
desses direitos.
E ali ele diz que tem que ser um conjunto articulado de ações
governamentais e não governamentais. Porque o Estado sozinho não
tem condições de estar presente em todas as condições,
em todos os momentos. Isso já está mais do que provado.
Nós só vamos ter os direitos de uma sociedade devidamente
respeitados como diz a lei, se todos nós nos conscientizarmos da
nossa responsabilidade no sentido de que não basta exigir do Estado,
nós temos que fiscalizar, nós temos que estar juntos. Se
não andarmos juntos com ele, não conseguiremos concretizar
o que está escrito nem na constituição e nem em uma
outra lei infra constitucional.
Com relação as crianças e adolescente é o
mesmo esquema. E aí, quando ele vem tratando desse conjunto articulado,
ele chega a um grupo de entidades, ele define também num capítulo
várias modalidades de entidades que podem ser criadas visando à
implementação e a aplicação concreta dos direitos
a todas as crianças e adolescentes, mesmo aquelas crianças
que estão numa situação de risco, por abandono familiar,
por conduta própria daquele adolescente, ou por outro motivo qualquer.
E aí é que vem as entidades que podem ser, desde apoio à
família, desde que seja uma entidade que vise a integração
familiar, ou qualquer tipo de entidade que você queira criar. E
dentre elas prevê também o abrigo das acrianças e
adolescentes. E com relação ao abrigo o legislador também
foi super delicado e sutil ao estabelecer o que é um abrigo e o
que é uma entidade de internação. Abrigo é
para crianças e adolescente carentes. O abrigo não é
para o infrator. O infrator, sim, nós temos uma entidade própria,
para re-socializar, para re-educar e para re-inserir na sociedade.
Mas, com relação como o abrigo, ele também teve a
preocupação de definir a obrigação de cada
um. Mas, antes, ele ainda teve uma preocupação maior ainda.
Já que todas as nossas crianças e adolescentes tem o direito
à vida, à saúde, à liberdade,, à dignidade,
ao respeito, à convivência familiar, à educação,
e ainda a profissionalização, além do esporte e lazer
e outros mais, ele, dentro do abrigo, já que nós estamos
numa transformação social, ele também modifica a
situação desse dirigente desse abrigo.
E aí ele equipara o dirigente do abrigo a um guardião. Grande
modificação quando ele dá essa natureza, quando ele
equipara o dirigente do abrigo ao guardião. Porque? Porque, antigamente
os abrigos eram depósitos públicos em que as pessoas achavam
que, para solucionar um problema de crianças abandonadas, era ter
um espaço em que elas ficassem ali até completar 21 anos
de idade. Mas hoje, na condição de guardião, essa
situação mudou. Porque mudou? Quem é o guardião
perante a nossa lei? O guardião é aquela pessoa que a lei
concede a ele uma parcela do poder familiar. Quem detém o poder
familiar? Somente o papai e a mamãe. E, quando ele equipara o dirigente
de um abrigo a um guardião, e quando ele diz que esse guardião
passa a ser detentor de uma parcela do poder familiar, significa que o
dirigente do abrigo ele passa a ser responsável como uma pai com
relação a assistência material, moral e educacional.
Então, vejam o quanto modificou, ela deixa de ter um número,
a criança deixa de ser um anonimato, um alguém, um nada
dentro do abrigo e passa a ser uma pessoa com todos os seus direitos previstos
na lei. Passa a ter o direito de ser respeitado; passa a ter o direito
de ser respeitado como pessoa propriamente dita. Com isso, o guardião
tem que respeitar essa situação e terá que visar
principalmente vários aspectos do que diz a lei. Primeiro, diz
assim: é claro, como guardião... esse abrigo é uma
unidade de transição entre a família substituta e
a família natural. Então, se é uma modalidade de
transição, para que serve o abrigo? Apenas para nós
trabalharmos um período, já que essa criança não
pode ficar no seio da sua família natural, ela terá que
ser colocada em uma família substituta. Então, o abrigo
é apenas essa ponte, não é mais um depósito.
É apenas uma ponte de transição entre a família
natural e a família substituta.
Então, o que terá que fazer o dirigente do abrigo? Primeiro,
ele terá que tentar lutar de todas as formas para trazer a família
natural para a sua responsabilidade em relação ao seu filho.
Então, ele terá que procurar esta família. Ele terá
que conversar e convencer esta família, para que ela assuma a sua
posição de família daquele menor. Se não conseguiu,
terá que comunicar ao Juizado da Infância para que o Juizado
da Infância, juntamente também com o abrigo, consiga uma
família substituta. Porque hoje o melhor lugar para se criar uma
criança é no seio de uma família. Não é
só na família natural; na falta da família natural,
terá que vir a família substituta.
E como eu venho como família substituta? Você pode vir de
três formas. Ou numa modalidade de guarda, ou de tutela, ou de adoção.
Então, nós temos que estimular... esclarecer as pessoas
de que nem sempre temos que adotar uma criança ou um adolescente
para darmos apoio a essa criança. Podemos apoiá-las de outras
formas, já que não queremos essa pessoa como membro da nossa
família, através da guarda ou da tutela.
Então, esta é a função de um abrigo. Para
que o abrigo possa exercer essa função propriamente dita,
de elo entre a família substituta e a família natural, a
lei diz que, é claro, o atendimento tem que ser feito em pequenos
grupos. Como é que eu posso pensar em trabalhar uma transição
rápida da família natural para a família substituta
em um número infindável de menores abrigados? Isso é
impossível! Isso não dá! Então, a lei diz:
olha, a primeira coisa que a instituição deve preservar
são os vínculos familiares: procurar saber de onde é
aquela criança; como ela veio. Ela cria uma fichinha, um histórico.
Depois, você terá que trabalhar a colocação
em famílias substitutas. Se isso não der certo, você
ainda terá que trabalhar aquele menor para um futuro desligamento.
Isso é uma coisa muito importante. Porque o brasileiro, embora
seja um povo muito solidário; embora seja um povo afetivamente
emotivo, ele não gosta muito de cuidar do filho do outro. Isso
é uma grande verdade! Isso, você percebe mais na classe pobre.
Na classe rica, eles não querem nem cuidar dos filhos deles, porque
eles não têm tempo. Então, contratam empregados para
tomarem contas dos seus filhos. A classe pobre compra tudo em doze vezes
- televisão, rádio, computador - desde que o filho não
perturbe. Então, quem tem mais disponibilidade, por incrível
que pareça, são as camadas mais pobres. E as camadas mais
pobres mal têm para elas, mas mesmo assim ainda têm uma sensibilidade
para cuidar das pessoas carentes.
A lei diz: se você não consegue mobilizar pessoas para colocação
em família substituta, você terá que ter esse menor
sob os seus cuidados no abrigo, visando o futuro desligamento. Por quê?
Porque o estatuto só protege a criança e o adolescente até
dezoito anos de idade incompletos. Completou dezoito anos... ele dorme
com dezessete, com a proteção da doutrina da proteção
integral e acorda, aos dezoito, totalmente desprotegido das normas do
estatuto. E o que acontece? Na prática, o abrigo não pode
mais ter a criança e o adolescente quando se tornam jovens. Completando
dezoito anos, eles têm que ir para as ruas. Porque quem vai protegê-los
não é mais o estatuto, serão as leis civis, que nos
protegem como um todo. Nós temos o Código Civil, o Código
Penal e várias legislações que protegem o adulto.
Então, com dezoito anos de idade, ele é considerado adulto;
ele é considerado plenamente capaz, com isso, ele saí da
esfera da proteção do Estatuto. É por isso que o
Estatuto vem dizendo que, dentre as obrigações do guardião
ou do dirigente do abrigo, é a de preparar o abrigado para o seu
futuro desligamento. E isso você percebe que, na prática,
não acontece, porque a criança quer ficar no abrigo. A criança
acha que tem empregada para fazer comida, para lavar a roupa e para cuidar
do abrigo. Ele não é obrigado a fazer nada, porque, ali,
todos acham que ninguém pode impor a ele a responsabilidade sobre
suas próprias coisas. Ele está sob a doutrina da proteção
integral. Então, vem esse entendimento errado. E aí ele
cresce cheio de direitos. Ele quer estudar, ele estuda, ele não
quer, ele não estuda, porque o dirigente não pode obrigar,
porque é a doutrina da proteção integral. Então,
todo mundo com a capa da doutrina da proteção integral,
e nada pode tocar na criança. A criança passa a ser a grande
responsável pelo seu desenvolvimento: só faz o que quer,
como e quando. O que é um absurdo. E, mais ainda, sob esse prisma,
ele não estudou, ele não se preparou para o seu desligamento,
e, aos dezoito anos, terá de ir para a rua, mesmo como mendigo,
irá. Já cansei de entrar com ação de despejo
de adolescente jovem, com dezoito anos, que não querem sair do
abrigo, porque não têm outra referência familiar, mas,
infelizmente, a lei não os protege mais, e, aí, ele terá
que ir para a Leão XIII, que é o local de abrigo de maiores
carentes. É isso o que o Estatuto vem prevendo e é isso
o que a gente tem de discutir hoje aqui: a função de cada
instituição, a função de cada um. E para que
isso de certo, a lei criou, ainda, fiscais. Temos o Conselho Tutelar e
a própria sociedade fiscalizando. E eles vão e fiscalizam
o andamento do abrigo. Não é só casa, comida e roupa
lavada. E uma coisa que a gente precisa também e que me assusta.
Em uma entrevista que teve recentemente, na televisão, dado a esses
vários acontecimentos que têm surgido, como na praia, em
que aqueles turistas foram vítimas de violência. E quem de
nós não foi? Ficamos tão estarrecidos com aqueles
turistas. E nós, cidadãos brasileiros que pagamos impostos
e não somos protegidos? Vamos nos revoltar com a nossa segurança,
não só com a deles. Mas deixemos isso para lá. Então,
vi uma entrevista em que, dentre aqueles meninos que foram apreendidos
na praia, havia um grupo de carentes, havia um grupo de infratores. Infratores
são os acima de doze anos, e crianças abaixo de doze anos.
Criança pratica ato infracional, é claro. Se ela pratica
um fato que está descrito na lei como crime ou contravenção,
ela pratica ato infracional. Apenas o tratamento que é dado a ela
é diferente do que é dado ao adolescente. O adolescente
é responsabilizado penalmente, tanto que ele pode ter a sua liberdade
privada, o seu direito de ir e vir, e a criança, não. Mas,
aí, o que achei muito engraçado é que há um
grupo de pessoas que se incomodam muito com o Estatuto. O Estatuto é
uma lei que é apontada como responsável por tudo de errado
que acontece na nossa sociedade. E eles vêm dizendo que aquelas
crianças ficaram somente duas horas no abrigo que as recolheu,
porque elas não quiseram permanecer. E fiquei pensando. Meu Deus!
Como as pessoas podem dar uma interpretação tão literal
da lei? A lei, quando definiu os direitos fundamentais, dentre eles o
direito da liberdade, da dignidade e do respeito, é claro que ela
deu uma definição clara do que é dignidade. Dignidade
é você impedir que uma criança ser objeto de opressão,
de violência, de maus tratos. O que é o direito ao respeito
à criança. A criança não pode ser objeto de
maus tratos, de violência física, de violência mental,
espiritual e moral. E o que é o direito de liberdade? A lei definiu
o direito de liberdade, que é o direito de ir e vir, de estar em
logradouros públicos, é o direito de opinião, expressão
e vários direitos de pensamento, de liberdade como um todo. Mas,
a lei, antes de definir tudo isso, em seu art. 15, diz: "a criança
tem direito a todos esses", porque esse é a base da dignidade
da pessoa humana, é a liberdade, é o respeito à dignidade
como ser humano. É claro que a criança precisa disso para
sua formação. Mas não podemos de nos esquecer que,
na introdução, no caput do art., o legislador disse que
ela tem o direito a tudo isso, sim, mas nunca podemos nos esquecer que
são pessoas em desenvolvimento. E, por conta disso, essa liberdade,
esse respeito, e essa dignidade não é exatamente igual à
do ser humano, tanto que não é permitido à criança
dispor de seu corpo. Ela não pode dispor de seu corpo. Ela tem
a liberdade de opinião, de expressão, de estar, de andar,
de se mobilizar. Mas não pode dispor de seu corpo. Ela não
tem o direito de ficar num local que cause risco para ela. E a rua sempre
foi a madrasta das mães. Ela não tem esse direito de ficar.
A lei diz: "estar"; "estar" não é "permanecer".
Então, começou-se a dar uma interpretação
muito errada do Estatuto. Porque, o Estatuto, muito antes de definir todos
os seus direitos fundamentais, no Artigo 6º dessa mesma disposição,
dessa mesma lei, diz que, antes de você interpretar qualquer norma
dessa lei, você terá que se ater aos fins sociais dessa lei,
os princípios de bem comum e a condição peculiar
das crianças em desenvolvimento. Fins sociais do Estatuto, o que
visa essa lei? O Estatuto, quando foi criado, foi criado visando a paz
mundial. Por quê? Porque o homem estava se destruindo. Nós
temos exemplo disso: a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, em que,
em espaços pequenos de história, o homem quase que se autodestruiu
com a bomba atômica. Então, o homem parou, em 1950, e começou
a questionar onde estava o erro da sociedade. E viu que o erro estava
na visão da criança e do adolescente. Então, para
isso, ele cria uma lei, alterando uma visão de que a criança
não era nada, não representava nada. Ele viu que a criança
era a base da sociedade. Por que a criança é a base da sociedade?
Porque, através da criança, é que nós vamos
ter a base da sociedade de amanhã. Sob uma criança, se desenvolve
um adolescente; sob um adolescente, um jovem; sob o jovem, o homem, a
pessoa mais velha; e daí, até a morte. Então, a criança
é a base da sociedade. Se eu permitir que uma criança se
desenvolva respeitando todos os seus direitos, desde o seu nascimento
com vida, nós teremos uma sociedade harmoniosa, uma sociedade em
paz, uma sociedade solidária. Então, qual é o fim
do Estatuto? É permitir um crescimento sadio e harmonioso de crianças
e adolescentes, com vistas a uma paz mundial. Este é o fim do Estatuto
da Criança e do Adolescente. Mas, ele diz para você não
se preocupar só com os fins da lei; mandou que você observasse,
também, o Princípio do Bem Comum. Qual é a base do
Princípio do Bem Comum? Que o direito de um começa onde
termina o do próximo. Você não pode falar em sociedade,
se não houver limites, se não houver cada um tendo o seu
espaço limitado. A lei delimita o espaço para todos: para
o adulto, nós temos os códigos; para a criança, nós
temos o Estatuto. Então, o direito de cada um é limitado
em cada lei. Não existe direito que se sobreponha a cada um. Os
direitos convivem pacificamente. E a lei ainda manda observar a questão
da criança e do adolescente, que está num peculiar processo
de desenvolvimento. Por conta disso, os seus direitos não podem
ser iguais aos nossos. Porque, se eles estão em processo de desenvolvimento,
têm que se permitir a eles vivenciar esses direitos no período
certo, no momento certo. Senão, o tempo passa e eles não
vão vivenciar o direito e a proposta inicial do Estatuto não
chegará ao seu fim, que é uma sociedade justa e harmônica.
Então, a lei é criada num mecanismo só, envolvendo
família, sociedade e Estado. Hoje, a discussão dos abrigos
é a participação da sociedade através de um
abrigo. Mas, também, temos que ter a participação
da sociedade através da fiscalização. Não
podemos falar em democracia sem responsabilidade recíproca. E hoje
"criança e adolescente" fazem parte do processo democrático.
Não podemos falar em democracia sem a responsabilização
da criança e do adolescente. Então, todos nós somos
responsáveis por uma sociedade justa e solidária. Num abrigo,
temos que ensinar às crianças e aos adolescentes que eles
têm o direito de ir e vir, sim. Mas, o direito de ir e vir como
o dos nossos filhos: vão para a escola, para a praça pública,
vão brincar, vão ao cinema, vão se divertir. Mas
não de ficar na rua. Através do direito da responsabilidade,
da opinião e expressão, temos que ouvir os seus anseios
sim, sempre, porque elas são pessoas e, como pessoas, elas têm
sentimentos. Mas, os sentimentos delas não podem ser ouvidos de
uma maneira sozinha num contexto. Você escuta, num contexto geral,
levando em consideração todas as situações
que circundam aquela criança. Então, isso é que a
lei. A lei não diz, quando fala na integridade física, que
o pai não possa se utilizar à força para educar seus
filhos. Somente os pais, segundo a lei, detém o poder de utilizarem
a força para educar os filhos. A lei só não permite
aos pais que os espanquem, porque o Art. 136 do Código Penal diz
que "o pai responderá por excesso, em caso de maus tratos
dos filhos". Então, a lei só permite aos pais, não
aos guardiães de unidades de internação ou de abrigo.
Por quê? Porque esses têm o Juizado do seu lado para tomar
as medidas cabíveis.
Então, se uma criança está num abrigo e ela não
se adapta às normas daquele abrigo, ela está criando problemas
naquele abrigo, nós podemos até transferir para quantos
abrigos forem necessários, até ela encontrar aquele canto
em que ela vai se identificar.
Não é permitida a agressão à criança,
somente aos pais, de forma moderada. A lei, em momento algum, proibiu
a palmada do papai e da mamâe, até porque existe aquele velho
ditado "a galinha sabe como pisa nos pintos". E às vezes,
uma palmada bem dada enquanto criança, evita o pau-de-arara de
amanhã... Isso com certeza!
E o que me assusta hoje em dia, também é uma coisa que devemos
aproveitar esse momento aqui, é porque o Estatuto da Criança
e do Adolescente, ou não só o Estatuto, mas a Constituição,
ela criou a idéia da paternidade responsável. E isso é
o que a gente não está vendo na prática... Vejam
essa questão... Há uns quatro, cinco meses atrás,
eu fiquei pasma ao receber uma avó me pedindo para abrigar o neto.
A idade da avó? Vinte e nove anos! Uma avó com 29 anos de
idade ainda está em pleno momento de concepção, de
gerar filhos. Quantas pessoas irão nascer dessa família?
Como vai ficar a sociedade se nós não começarmos
a conscientizar a questão da responsabilidade, da paternidade responsável.
E para isso nós precisamos da ajuda desta Casa e de todas as Casas
em que o povo se faz presente, ou representante.
Então, é muito importante, que não só tenhamos
discussões acerca do problema dos abrigos, mas também da
conscientização do povo, no seu papel de povo como fiscal
e como responsável pelas suas famílias.
Muito obrigada! Espero que possa ajudá-los, se tiverem alguma dúvida.
O SR. PRESIDENTE (S. FERRAZ) - Por haver um engano aqui da Mesa, eu gostaria
de repetir aqui de novo que a Exma. Sra. Ângela Maria Silveira dos
Santos é Promotora de Justiça da Promotoria da Infância
e Juventude de Duque de Caxias.
Eu vou passar a palavra agora... A próxima oradora é a Sra.
Cláudia Cabral, representante da ONG Terra dos Homens.
A SRA. CLÁUDIA CABRAL - Boa tarde! É um prazer estar aqui
com uma porção de amigos, na verdade, para a gente estar
trocando tudo o que a gente tem feito. Acho que essa construção
tem sido toda nossa, a partir do momento em que nós estamos sempre
juntos, em diversos momentos, mais de 10, 15 anos trabalhando juntos...
Nesse momento a gente está aqui, no Legislativo, e eu não
sei se todo mundo tem participado, ao longo da sua história, nessa
área da criança e do adolescente, de espaços em que
o Legislativo se faça tão presente como ultimamente!
Pelo menos eu, pessoalmente, tenho reparado isso. Acho que nós
temos tido muito contato com a ALERJ, várias segundas-feiras estamos
indo à ALERJ. Na semana que vem vai estar tendo uma discussão
em cima do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente na Alerj,
hoje estamos aqui. E eu acho extremamente oportuno que o Legislativo comece
a chegar bem mais perto em termos de articulação conosco,
debatendo essa questão da criança e do adolescente.
Mais importante ainda é quando vemos que aqui tem universidade,
tem cooperação internacional, tem as ONGS, tem o Judiciário,
tem o governo - salvo não conheço, pois a princípio
não estou vendo ninguém representante, mais especificamente
ou da FIA ou da Secretaria De Desenvolvimento Social aqui, se tiver me
desculpem. Mas acho que estamos conseguindo ter um espaço de muita
troca, cada um com a sua responsabilidade.
Eu escolhi hoje me ater mais ao Conselho Municipal da Criança e
do Adolescente, a partir do momento em que estamos na Câmara Municipal,
e muitos de nós aqui já fizemos ou estamos fazendo parte
do Conselho Municipal, que delibera política. Eu fico feliz de
estar aqui no Rio, porque levantando aqui comigo o histórico do
que o Conselho Municipal do Rio de Janeiro já fez pela questão
do abrigamento, eu diria que temos feito muita coisa e ainda estamos fazendo
muita coisa.
Recentemente, fui convidada para estar em São Paulo em um evento
que falava sobre Família Guardiã, pois eles estão
implementando uma Família Colhedora lá, e tive a oportunidade
de conhecer um pouco o universo de uma pesquisa de abrigos que foi feita
lá. E se nós compararmos a situação do Rio
com a de São Paulo, eu acho que o papel que o Conselho Municipal
daqui tem tido no interesse pela questão do abrigamento aqui no
Rio está, realmente, nos ajudando; a diferença é
grande.
Lá eles têm mais de cinco mil crianças em situação
de abrigo. É claro que é uma cidade maior, uma cidade grande,
mas tem muito abrigo ainda com mais de duzentos e cinqüenta crianças,
enquanto que aqui, na pesquisa que fizemos, o máximo que conseguimos
foi cento e cinqüenta, mesmo assim numa situação bem
específica.
Então, vou passar aqui um pouco uma pincelada no histórico
do que eu conheço dessa nossa luta pela questão do abrigo
aqui no Conselho Municipal do Rio. Primeiro, em 1997- é pena que
o Edivaldo Oliveira tem levantado, eu não sei se ele foi embora,
ou se vai voltar, mas ele era o presidente do Conselho Municipal à
época -, deliberamos várias políticas. Duas delas
para mim mais importantes, isso em 1997. Foi a da Família Colhedora,
que até hoje está funcionando, e só o Município
do Rio de Janeiro é que tem a história, em termos nacionais,
mais longa de manutenção de um projeto de acolhimento familiar.
O acolhimento familiar fui instituído em São José
dos Campos, um dos mais antigos e acabou; foi instituído no Rio
Grande do Sul, em Porto Alegre, e acabou. Os outros mais antigos hoje
são Campinas e São Caetano do Sul, só que São
Caetano do Sul tem há um ano e meio, e Campinas tem há dois
anos, e nós, aqui no Rio - talvez por esse projeto ter iniciado
aqui no Conselho Municipal - estamos conseguindo mantê-lo. Como
já foi dito aqui, o acolhimento familiar com certeza é uma
grande alternativa ao abrigamento.
Uma outra medida, bem interessante, tomada na época foi o primeiro
projeto que se chamava Trabalhando Com Os Abrigos. Na época, em
1997, o Conselho decidiu atuar especificamente na região do Méier,
ali na chamada 3-1. E quando fomos fazer o levantamento da pesquisa, percebemos
que foi a região que mais reordenou seus abrigos. Sobre treze abrigos,
seis sofreram reordenamento. Não foram fechados; reordenaram-se.
E no nosso universo de pesquisa, vimos que a média de crianças
abrigadas, naquela região, era de quinze crianças por abrigo,
o que é um número bastante razoável dentro da política
de abrigamento.
Depois, num outro momento, em 2000 e 2001, o Conselho Municipal da Criança
e do Adolescente aqui do Rio lançou duas políticas: a política
de intervenção frente à violência doméstica
- eu não sei se todo mundo tem acesso a isso e conhece bem - e
a outra que mais nos interessa, é a política de abrigo.
Não são muitos os Municípios do Rio que têm
uma política desenhada, e nós temos essa política
desenhada. Ele foi desenhada, mais ou menos, em 2000 e foi publicada em
2001 na época em que o Jorge era presidente do Conselho, atento
a importância e ele pegou as duas políticas e logo publicou
e fez face a uma discussão no momento em cima dessa política.
Isso em 2001, dois anos depois, em 2003, vem o Conselho Municipal de novo
pedindo uma pesquisa sobre a situação dos abrigos. São
poucos os estados também que têm feito uma pesquisa mais
aprofundada. Teve São Paulo, tivemos nós, teve essa pesquisa
da rede SAC que a Alison comentou em nível nacional. O objetivo
dessa comissão intersetorial de Brasília é que todos
os municípios façam seus levantamentos e nesse nosso levantamento
nós conseguimos detectar algumas situações e eu vou
tentar fazer um paralelo entre o que foi desenhado nessa política
e como está a situação nossa de aplicação
dessa política. Estamos aplicando? Não estamos aplicando?
De que forma a gente poderia estar atento para mostrar o que ainda não
conseguiu ser feito? E só para concluir esse histórico do
Conselho Municipal, agora em 2005, agora ainda no final de 2004, está
se prevendo fazer então o reordenamento, após a pesquisa,
desses abrigos do Rio para adequá-los ao estatuto. O que eu poderia
dizer é que na leitura que eu faço de dois em dois anos,
nós estamos baixando uma nova portaria, investindo o dinheiro do
fundo na questão do abrigamento. Eu acho extremamente importante
que a gente possa utilizar este espaço que o Conselho está
dando para o Rio como forma de mostrar realmente que a gente pode mudar
essa situação, apesar da situação da Romão
Duarte, da Roda e de todo o histórico que foi trazido aqui, ter
começado muito aqui no Rio de Janeiro, nós estamos de fato
conseguindo mudar. E isso para mim ficou claro quando eu tive esse encontro
em São Paulo e em cima da pesquisa mesmo o pessoal estava levantando:
"Gente, o que está acontecendo?" O Rio está conseguindo
mudar. Eu acho importante que a gente esteja atento a isso.
Fazendo um paralelo então entre a política e a pesquisa,
na questão dos vínculos à família, deu que
77% das crianças têm vínculo com as suas famílias.
Então, se a gente parar para pensar muita coisa ainda precisa ser
feita no sentido da reintegração familiar. Avançando
aqui na política eu vou chegar onde eu acho que é o gargalo
e que a gente poderia estar mais atento para fiscalizar e acompanhar de
alguma forma. Outra coisa que foi levantada, que traz a política,
é a importância do abrigamento próximo à residência.
Este fato não acontece em alguns espaços do Rio. O que nós
percebemos é que o número maior de crianças abrigadas
é na região centro e na região sul do Rio de Janeiro,
na zona sul. A média de crianças abrigadas na região
centro é de 50 crianças por abrigo e na 2.1, que é
a zona sul, tem 47 crianças por abrigo. Em todas as outras regiões
há menos de 20 a 25 crianças por abrigo. A pesquisa prevê
25 crianças no máximo por abrigo. E sabe-se que essas crianças
que estão nos abrigos do centro e da zona sul vêm, em sua
grande maioria, da Baixada Fluminense ou da zona oeste. Então,
o que está sendo feito na Baixada Fluminense? Estou aqui do lado
do promotor... E o que está sendo feito na zona oeste do Rio de
Janeiro em termos de prevenção para evitar essa migração
e que as crianças acabem sobrevivendo das ruas aqui onde tem mais
atrativo e, com isso, elas passam mais para dentro dos abrigos.
Outro ponto é a flexibilização dos horários
de visita dos pais, que foi levantado na pesquisa que é obrigatório
ter um abrigo aberto para a visita dos pais. De 69 abrigos que nós
pesquisamos, 31 deles têm horário certo para visita, não
flexibilizam o horário. Ou seja, quase 50% deles não permitem
que os pais possam ir a qualquer hora ver seus filhos. Isso é um
ponto que chama atenção.
A questão do tempo de permanência no abrigo. Todo mundo tem
muito medo de fixar esse tempo. Hoje o projeto de lei de adoção
que está tramitando em Brasília e que mexe muito com abandono,
porque ao falar de adoção você fala de abandono, acaba
entrando nessa seara toda do abrigamento, tem uma discussão enorme.
Ele está querendo muito delimitar uns prazos. E o fato de delimitar
o prazo já leva muito questionamento. A nossa pesquisa levantou
que 42% das crianças que estão em situação
de abrigo permanecem de 2 a 5 anos abrigadas. Eu lanço de volta
para a platéia. O que a gente faz com isso? Vamos delimitar um
tempo? Que tempo vocês acham que seria viável para que se
esgotassem os estudos e se fizesse um diagnóstico preciso para
dizer se a criança vai ou não permanecer naquele abrigo
ou vai ser colocada numa família substituta e não vai poder
ter sua reintegração efetivada? Eu acho que essa discussão
é extremamente interessante porque nos obriga a nos questionarmos
sobre como estamos atuando dentro do tempo da criança, que é
o tempo mais importante, que é para quem a gente está aqui.
E a questão do número de crianças que a política
de abrigo traz, que ela exige aqui no Rio que haja no máximo 25
crianças. E 35% das instituições que nós levantamos
tinham mais de 50 crianças dentro dos seus abrigos.
É claro que o Conselho Municipal está levando em conta esses
pontos quando pede agora o reordenamento das instituições.
Essas questões vão ser levantadas, esse reordenamento vai
procurar ser trabalhado em cima dessa política que ele mesmo, Conselho,
desenhou. Isso é uma coisa. Outra coisa são as parcerias...
Eu acho que é superinteressante que todo mundo saiba... os atores,
principalmente o Executivo, acompanhem essa política que eu estou
dizendo. Porque essa política foi deliberada... e o próprio
MP que se baseie nela para poder denunciar e fiscalizar onde a coisa não
está andando. A Secretaria de Educação, por exemplo,
propõe que em todas as escolas haja um trabalho junto às
famílias. Eu não sei se tem alguém aqui da Secretaria
de Educação. Eu acho que é muito importante parar
para pensar até que ponto a porta da escola está aberta
de fato para receber as famílias. Outra coisa são as fichas
de maus-tratos, porque dentro dessa política de violência
doméstica, que é um lado bastante preventivo, existe todo
um grupo de demandas em cima de fichas que vão ser preenchidas
onde haja uma denúncia, onde se mostre, tanto na Secretaria de
Saúde quanto na Secretaria de Educação quais são
as situações de risco que a criança está passando.
E a gente sabe que a entrada pelo Conselho Tutelar para chegar no abrigo
passa muito por aí. Será que isso está sendo notificado
de fato? Não sei até que ponto também o Conselho
Municipal tem tido pernas para acompanhar, até que ponto essas
duas Secretarias têm essa notificação, e que ela esteja
sendo implementada. Aí o outro ponto que eu acho mais do que importante,
porque aí remonta à questão dos vínculos familiares,
da reintegração familiar e de tudo que diz respeito à
família de origem, é onde a política aponta que a
SMDS, no apoio à família, deve dar não só
os subsídios concretos, mas todo subsídio através
de um acompanhamento psicossocial. E aí eu me pergunto até
que ponto os cartões sociais que estão sendo distribuídos
às famílias, até que ponto todo o trabalho que está
sendo feito junto às famílias de origem têm de fato
um acompanhamento psicossocial. Como esse acompanhamento está sendo
feito? De que forma você decide pela aplicação desse
recurso e pela autonomia que essa família vai ter num certo momento
para não depender desse recurso o tempo todo. Esse eu diria que
é o ponto crucial do nosso trabalho. O dia em que a gente conseguir
ter um bom acompanhamento psicossocial junto aos recursos materiais que
essas famílias recebem, eu acho que muita coisa vai poder mudar,
porque nós vamos poder contar com uma reintegração
familiar onde a família, no seu próprio local, está
recebendo todo o apoio e toda a orientação e acompanhamento
necessário.
Outro ponto importante que diz respeito à nossa questão
do abrigo é o papel do Conselho Tutelar. Duas coisas me chamaram
a atenção. Uma é que o Conselho Tutelar só
deve institucionalizar a criança em caso extremo. Eu já
tive várias participações em eventos onde muitos
conselheiros tutelares dizem: "A primeira coisa em que meus colegas
pensam é em abrigar uma criança". Nem todos pensam
assim, mas muitos pensam assim. E essa cultura da institucionalização.
A política diz: só em caso extremo. O que é caso
extremo? Isso tem que ser discutido. E eles são a porta de entrada,
o Conselho Tutelar. Outra é a fiscalização dos abrigos.
Está escrito na política: de 6 em 6 meses, os Conselhos
Tutelares devem fazer uma avaliação da situação
de todos os abrigos da sua região. Fazendo uma avaliação
dessa situação, eles vão notificar o Ministério
Público, o Juizado e o Conselho caso haja irregularidades. Eu não
sei até que ponto nossos conselheiros tutelares estão de
fato, de seis em seis meses, se aprofundando na situação
dos abrigos da região onde eles estão trabalhando.
E aí tem toda uma outra rede de articulações que
essa política traz, como que cada ator tem a sua missão
dentro dessa questão da criança e do adolescente. Aí
tem o Juizado, a Secretaria de Trabalho, a Secretaria de Esporte e Lazer,
de Habitação, de Cultura, as ONG´s, o que cada um
vai fazer. E, por coincidência ou não, o único setor
de onde a política não menciona seu papel é o Legislativo,
onde nós estamos. Eu não sei se é um pouco do que
eu falei. E agora, o Legislativo está mais perto disso tudo, as
Comissões das Crianças e do Adolescente estão mais
próximas, se na época que a gente desenhou essa política,
nós não nos atentamos para isso, mas é oportuno,
a gente estar aqui e vamos aproveitar isso. De repente, fazer um aditamento,
alguma coisa incluindo o Legislativo nessa questão. De qualquer
forma, todos esses atores, tudo que for levantado tem sempre como foco
principal a família. Se a gente abrir essa política e lê-la
de ponta a ponta, cada item, de alguma forma, em algum momento, está
falando da família. Todos os atores estarem trazendo a família
para ser foco de interesse na sua atuação direta. E eu acho,
aí retomando um pouco do início da minha fala, que a gente
precisa aproveitar essa oportunidade e ter isso como exemplo para Brasília.
Porque Brasília está criando essa comissão, Brasília
está pensando em pedir aos conselhos municipais de todos os cinco
mil e tantos municípios do Brasil para nós podermos estar
implementando a política localmente. A gente pensa global, mas
a ação é local. E nós temos autonomia para
isso. Eu acho que a gente, aqui no Rio, tem muita coisa para fazer. E
a gente precisa unir forças. Eu estou muito contente de o Conselho
Municipal agora estar investindo nessa questão do reordenamento
para ver se de fato a gente consegue mudar e mostrar que a gente pode
mudar e que a gente pode criar uma cultura diferente e fazer uma cultura
diferente. Mas para isso a gente precisa estar mais junto, levantando
todas essas questões que eu deixo e trago aqui em aberto para que
a gente possa debater depois. Porque no meu ponto de vista algumas delas
são mais importantes. Uma é o tempo de permanência
no abrigo, que eu já falei. A outra, quem conhece essa política?
Ela está sendo alvo de estudo e de aplicação, ou
não? Por quê? O que a gente pode fazer para que ela seja
conhecida? Outra: o Conselho Tutelar, como ele está vendo a institucionalização?
É caso extremo? Ele está fiscalizando os abrigos da sua
região? E uma última que eu acho que é a principal
de todas: SMDS e FIA - todos os projetos de renda mínima e de cartão
social têm tido acompanhamento psicossocial aprofundado e paralelo
à aplicação desse recurso material? Como é
que ele está sendo aplicado? Como é que isso está
sendo feito? Como é que a gente pode contar com esse recurso? Eu
acho que essas são as questões básicas que eu trago
para a gente estar refletindo junto. Obrigada.
O SR. PRESIDENTE (S. FERRAZ) - Antes de passar a palavra ao próximo
orador, queria deixar registrado aqui que foi convidado o Secretário
Municipal de Assistência Social do Município do Rio de Janeiro,
Sr. Marcelo Garcia, que não compareceu e poderia nos dar a oportunidade
até de saber do que tem feito o Município do Rio de Janeiro.
Eu quero passar a palavra à Luciene Miguez Naif, representante
da Organização Não-Governamental Ex-Cola.
A SRA. LUCIENE MIGUEZ NAIF - Bem, é um prazer estar aqui representando
a Ex-Cola, que é uma instituição que tem quase quinze
anos de trabalho com crianças e adolescentes em situação
de risco e como a Cláudia falou, eu vim aqui apresentar a pesquisa
que nós realizamos a pedido do Conselho Municipal dos Direitos
da Criança e do Adolescente em todos os abrigos da cidade do Rio
de Janeiro.
Nós dividimos essa pesquisa entre Ex-Cola e a BTH da seguinte forma:
o Ex-Cola, pela experiência que ele traz com adolescentes e jovens,
pesquisou os abrigos que atendiam adolescentes. E a BTH pesquisou basicamente
os abrigos que atendiam a crianças. Os abrigos que atendiam crianças
e adolescentes foram pesquisados por ambas as instituições.
Essa pesquisa muito nos agradou porque o Ex-Cola já desempenha
um trabalho com jovens oriundos do sistema de abrigo desde 1994 e temos
unidades na cidade do Rio, que chamamos de repúblicas e que na
verdade não são espaços com aquele formato de abrigo,
mas repúblicas, apartamentos alugados na cidade e esses meninos
que vêm, oriundos desse sistema de abrigamento, quando completam
18 anos e ficam desprotegidos pelo ECA, são inseridos nesse programa.
São 22 vagas que a gente tem.
Então, nos interessou muito participar dessa pesquisa porque já
conhecíamos o lado dos meninos e seria uma oportunidade para conhecermos
como estavam funcionando os abrigos de onde esses meninos estavam vindo.
A primeira dificuldade que encontramos foi com uma listagem única
dos abrigos da cidade. Nós buscamos várias fontes, tais
como o CIOA (?) do Juizado de Menores, o próprio Conselho, os Conselhos
Tutelares, a FIA, a SMDS e percebemos que as listagens não combinavam.
Isto já foi uma dificuldade inicial, mostrando que deve estar havendo
alguma dificuldade sim, como apontou a Cláudia, quanto à
fiscalização dos abrigos e na comunicação
entre esses atores que estão ligados ao sistema de abrigamento.
Nós preferimos utilizar uma pesquisa qualitativa. Nos foi pedido
apenas um levantamento de como estava a situação do abrigo
em relação à política de abrigos e aí
fomos aos abrigos conversar com os técnicos e educadores, não
só sobre como o abrigo estava trabalhando, o que ele oferecia,
mas como algumas questões específicas do atendimento estavam
sendo tratadas pelos técnicos responsáveis, coordenadores
e educadores. Nós utilizamos como norteador das nossas entrevistas
a própria política e o artigo 92 do ECA, mas utilizamos
depois na análise quatro grandes indicadores, que achamos que dão
conta de tudo o que estávamos querendo entender, que são:
como o abrigo trabalha; individualização e autonomia; relação
com família; relacionamentos sociais; como a instituição
é de fato na sua adequação dos espaços físicos,
a sua proposta pedagógica e como está a equipe técnica
dessa instituição, de que forma ela está sendo formada
e capacitada e que tipo de liberdade ela tem de diálogo dentro
do próprio abrigo.
Bem, vou citar alguns dados quantitativos, mas é importante ressaltar
que esses dados foram colhidos em abril e maio de 2003 e uma das coisas
que percebemos é que isso está mudando muito, os abrigos
têm se modificado muito rapidamente. Abrigos que eram abrigos deixam
de sê-lo, mudam de modalidade, outros passam a existir. Então,
são dados que devem ser relativizados ao tempo em que foram colhidos.
Na época, dos 51 abrigos que o Ex-Cola pesquisou, tínhamos
1.914 vagas e dessas 1.651 ocupadas, portanto, 263 vagas ociosas.
Nós encontramos índices altos de atendidos com a documentação
em dia, estudando. Com a documentação em dia nós
tivemos 97,21%; estudando 93,78%, sendo que a grande maioria no ensino
fundamental, quer dizer, existia um atraso muito grande na questão
da escolaridade. O que nos interessou bastante é essa questão
da permanência porque o que tínhamos como principal mote
dessa pesquisa era o seguinte: o abrigo é ou não é
uma medida provisória excepcional, como ele deve ser?
Então, nos prendemos muito nesse detalhe, isto é, de que
forma está sendo feita, de que forma essas crianças e adolescentes
estão ficando dentro desse abrigo, o tempo principalmente. 18%
permanecem de 6 meses a 1 ano; 40% permanecem de 1 a 5 anos e 42% permanecem
mais de 5 anos. Portanto, o abrigo não é uma ponte na maioria
das vezes, como deveria ser; ele não é uma ponte entre a
família e uma outra possibilidade protetiva - a família
substituta ou o retorno para a própria família. Percebemos
ainda que 50% dos abrigos relataram sentir dificuldade no recebimento
das crianças e adolescentes.
E os principais fatores a que eles atribuem essa dificuldade são:
1- o menino que está vindo direto da rua. Eles não se sentem
preparados para lidar com esse perfil;
2- a falta de comunicação com o Conselho Tutelar. Então,
o menino chegar a qualquer hora, de qualquer jeito, sem uma história
e isso dificultar a dinâmica do próprio abrigo de funcionar.
Com relação aos abrigos - e isso eu estou falando do universo
geral dos 51 abrigos - desse universo geral, 13 abrigos eram voltados
exclusivamente para o atendimento de 12 a 18 anos. Então, para
os adolescentes nós tínhamos 253 vagas, 218 abrigados, 35
vagas ociosas. Apenas um abrigo misto, 3 abrigos femininos e 9 abrigos
masculinos. Bom, então a idéia era essa, era analisar não
somente o que o abrigo oferece, ou quais são os seus recursos,
mas como ele age em relação ao atendimento da criança
e do adolescente.
Principais conclusões a que a gente chegou: o abrigo não
é uma medida provisória excepcional para o atendimento a
adolescentes na maioria das vezes. O perfil dos adolescentes que estão
abrigados atualmente corresponde a três principais características:
é o adolescente colocado muito pequeno no sistema, já sem
referência familiar, o adolescente que precisa do abrigo para sair
de situações de risco a que está exposto, como a
miséria, a violência doméstica, a violência
na comunidade. E o adolescente que, por motivos variados, inclusive os
de cima apontados, encontra-se em situação de rua.
Então, o abrigo aqui, mais uma vez aqui reforçando nas conclusões,
ele não se sente preparado para receber essa criança ou
adolescente diretamente das ruas. E aí isso aí é
uma coisa que vai refletir diretamente nessa questão que a gente
tem depois: Ah, mas o menino não fica. O menino não fica
porque não é atrativo para ele, porque não é
interessante. Existe uma questão da sedução inicial.
A maioria dos abrigos trabalha com a idéia de que o menino tem
que se habituar às regras da casa. É por isso que uma semana,
alguns duas semanas, o menino não pode sair.
O menino chega com uma determinada vivência que nem sempre é
respeitada pelo abrigo. Às vezes o menino é usuário
de drogas, tem alguns vícios, ou já tem uma sexualidade
ativa, tudo isso não é levado em conta e isso dificulta
também a adaptação do menino. O abrigo, na maioria
das vezes, não sabe trabalhar questões como sexualidade,
drogas e adolescentes.
Isso foi interessante, saiu muito na entrevista que a gente fez com os
educadores, que a gente buscava explorar mesmo de que forma era tratado
no dia a dia, no cotidiano do abrigo, situações que tivessem
relação com sexualidade, com drogas, com conflitos. E a
gente percebeu que existe ali, que a forma como o educador vai trabalhar,
traz um pouco dos seus próprio preconceitos, da sua própria
forma de ver o mundo. Ele não obedece a uma proposta pedagógica,
que possa estar dando conta desse ser psico social que é o adolescente,
que está nessa situação.
Bom, o processo de entrada no abrigo não está adequado à
realidade que o jovem traz, aumentando o risco de evasão, ou não
adaptação. Não existe um sistema de troca de informações
entre as entidades envolvidas. A relação com a comunidade
muitas vezes se resume a hospitais e postos de saúde. Pouca integração
também dos adolescentes com o que é oferecido em cultura
de lazer na comunidade do entorno. Há um despreparo também
para o recebimento de portadores de necessidades especiais. A gente não
encontra nos abrigos esse trabalho que a gente já começa
a encontrar nas escolas do atendimento que seja ampliado para as crianças
e adolescentes com necessidades especiais. Que não haja um espaço
específico para elas, que seja uma coisa que elas possam estar
em conjunto com as outras crianças.
Uma coisa que também chama muito a atenção é
aquela idéia ainda antiga que alguns abrigos trazem da tendência
a ocupação ordenada do tempo, visando a disciplina e ao
bom funcionamento do abrigo, ao invés do aprendizado para a autonomia.
Muitas vezes o menino tem que se adequar às regras, em vez do abrigo
tentar se adequar ao menino. Isso é uma coisa que complica muito.
E aí você tem ainda aqueles regimes rígidos disciplinares,
tudo certinho, aquela coisa meio militarista. Alguns abrigos ainda trabalham
dentro desse perfil.
E aí quais são as conclusões que a gente chegou com
relação a isso e que a gente propôs ao conselho uma
continuidade desse trabalho? Que a gente possa estar agora indo nos abrigos,
não para fechá-los, ou para julgá-los mas sim para
propor uma capacitação das pessoas que estão trabalhando
lá, dentro dessas questões que são as que eles tem
mais dificuldades de lidar. Propor uma maior integração
entre os atores que estão envolvidos dentro do sistema. O problema
maior está no sistema, não em um abrigo ou outro especificamente,
e que o abrigo possa realmente ter condição de criar uma
proposta pedagógica que seja adequada à ECA, que seja adequada
à sua própria realidade que ele traz e seja adequada aos
meninos que eles querem atender.
Uma falha que ficou nessa pesquisa, que a gente também quer corrigir
com essa nova proposta, é buscar a fala dos atendidos, buscar a
fala dos jovens que estão sendo atendidos. Então, nessa
nova proposta há a idéia de a gente fazer grupos focais
com os jovens para ver de que forma está o impacto que está
sendo feito na vida deles essa estada deles dentro dos abrigos.
Eu já falei um pouquinho da república, então, eu
gostaria de deixar uma pergunta para finalizar a minha fala, que é
a seguinte: o que a gente de fato quer do abrigo? Qual o papel que o abrigo
tem que ter na vida dessas crianças e desses adolescentes? É
de ser algo semelhante a uma família, ou é ser um espaço
agradável e adequado, mas de curto período? O que a gente
quer, de fato?
A experiência que a gente tem com os meninos que passaram pela república
é que eles não tiveram nem uma coisa nem outra. Eles não
tiveram família; não tiveram o espaço de curto período
de tempo e foram criados, de fato, na impessoalidade, na falta de individualidade
e principalmente na falta de afeto. Então, todo o trabalho que
a gente tem em construir a autonomia desses meninos esbarra nessas dificuldades.
Então, eu acho que essa pergunta - o que a gente quer de fato do
abrigo? -... ele existe porque tem necessidade de ele existir. Mas, o
que a gente quer de fato? De que forma a gente quer que ele fique? São
perguntas sobre as quais a gente tem que refletir.
O SR. PRESIDENTE (S. FERRAZ) - Antes de passar a palavra para o próximo
orador, eu gostaria de saber se a platéia pensa em fazer algumas
perguntas aos membros desta Mesa, já que será o último
orador e a gente não pode se estender tanto. Alguém que
quiser fazer alguma pergunta, passe em um papelzinho, para que a gente
entregue à pessoa que vocês querem perguntar.
O próximo orador é o Sr. Jorge Barros, membro do Conselho
Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente.
O SR. JORGE BARROS - Boa tarde a todos.
Sr. Vereador, eu queria agradecer o convite e as palavras carinhosas emitidas
pela Irene Rizzini, que fazem a gente continuar na luta.
De fato, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro tem dado atenção
à questão das crianças e adolescentes no plano da
discussão. Eu acho que essa Casa tem sido bastante atuante nesse
sentido, principalmente depois da criação da Comissão
da Criança e do Adolescente. A Cláudia falou que tinha a
sensação de que isso estava acontecendo e, de fato, depois
da criação da comissão, efetivamente, têm se
dadas algumas discussões aqui. Embora, quase sempre nós,
que comparecemos aqui, fazemos as denúncias. Elas são lavradas
nas atas da Câmara; são publicadas no Diário Oficial,
mas pouco se realiza efetivamente na melhoria dos serviços, principalmente
naquela instância que reage com mais perversidade à não
implementação da política de abrigo emitida pelo
conselho municipal, que é a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
Se a pesquisa levada a cabo pela Terra dos Homens e pela Ex-cola consegue
identificar alguns reordenamentos acontecendo na cidade, infelizmente
nos abrigos da Prefeitura da Cid |